Opinião

Doria prometeu o BRT; São Paulo não precisa de mais ônibus

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No último dia 7 de novembro, o programa Roda Viva da TV Cultura entrevistou o prefeito eleito João Doria Jr (PSDB). Não é preciso descrever o currículo deste empresário, o qual passou feito um trator em cima de Fernando Haddad (PT) e outros candidatos nas últimas eleições.

É curioso, porém, ressaltar um pequeno detalhe de suas promessas que, se não for corrigido a tempo, mostrará que o seu programa de governo é mais do mesmo e que nada difere da agenda tucana. João Dória prometeu ser o candidato da “boa gestão”, do “diálogo”. Pois bem.

O Roda Viva permite aos seus telespectadores que interajam com os entrevistados através da rede social Twitter. Ao emitir perguntas e comentários com a hashtag #RodaViva, o apresentador Augusto Nunes seleciona algumas e as lê para que o convidado do programa as responda.

E assim o fiz: “Qual a visão de João Doria Jr sobre a implantação dos VLT (bondes) em substituição aos ônibus de São Paulo? ”. A pergunta foi ao ar, e respondida da maneira mais estapafúrdia possível.

João Dória pretende implantar o BRT (Bus Rapid Transit), que nada mais é que um ônibus articulado que anda em corredores específicos. São confortáveis e com ar condicionado, mas além de não suprirem a demanda do transporte de média capacidade, tem um custo de manutenção muito caro ao longo de cinco anos e poluem o meio ambiente.

A cidade de São Paulo possui hoje, de acordo com dados da SP Trans, cerca de 15 mil ônibus em operação. A pergunta que fica é: nós precisamos de mais ônibus, ou de um VLT? Não está na hora de realmente pensarmos na mobilidade a longo prazo?

No início deste mês, conforme divulgado pelo portal Estação Ferroviária (http://bit.ly/2fzIuQ1), a multinacional francesa Alstom realizou uma pesquisa com a consultoria Carbone 4, que avalia o nível de poluição emitido pelos tramways e os BRT.

Constatou-se que o VLT emite 50% a menos de CO2 que um sistema de BRT movido a diesel. Para os ônibus híbridos, o trem ainda se sobressai, poluindo 30% a menos. O ciclo de vida do VLT também é maior, com manutenção mais barata ao longo de 30 anos.

O VLT não utiliza combustível fóssil, somente energia elétrica. Amplamente utilizado na Europa, existem casos de linhas onde o VLT é movido por super capacitores, que recarregam a bateria somente quando o trem está parado na estação. Isso resulta em ganho em eficiência de gestão e baixo consumo de energia.

Além do mais, o VLT é um modal que transporta três vezes mais passageiros que um único BRT, com nível de conforto elevado, 100% acessível para cadeirantes e ciclistas, ar condicionado, etc.

Com uma expectativa que as emissões de CO2 cheguem a 1 bilhão de toneladas por ano no mundo até 2025, o VLT deve ser uma prioridade nas políticas públicas das cidades.

E não é o que ocorre na cidade de São Paulo, pelo menos até então. Entretanto, para construir uma via de VLT, é preciso o dobro do planejamento e investimento, por alguns motivos.

Além do fornecimento do material rodante, ou seja, do trem, é preciso construir a linha, o sistema de sinalização, telecomunicação, bilhetagem, sistema de energização, etc.

Por isso que os projetos de VLT conquistados no Brasil, como no Rio de Janeiro e Santos, custam mais de R$ 1 bilhão e o BRT não atinge esta cifra. Como o ônibus é um transporte obsoleto e precisa de subsídios do estado para o seu funcionamento, em pouco menos de cinco anos o sistema apresentará uma demanda muito maior do que a prevista, além dos gastos com a manutenção.

Ou seja, vamos investir num transporte que, por si só, não é funcional, e depois de um tempo jogaremos toda a frota na lata do lixo.

Se o prefeito João Doria Jr se diz visionário, seria interessante parar de prometer projetos que são verdadeiros tiros no pé e dar prioridade àqueles que ficarão para o legado da cidade.

São Paulo já teve linhas de bonde, basta reimplantá-las por intermédio da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo). O VLT de Santos, por exemplo, é um projeto de modelagem PPP com trens da Vossloh fabricados pela TTrans.

Para se ter uma melhor noção, em Berlim, na Alemanha, a rede de VLT é operada pela BVG. O sistema muito se assemelha com os nossos ônibus municipais, até mesmo nas paradas das estações (vide foto de capa). A diferença é que não se trata de um transporte sobre pneus, mas um trem silencioso e não poluente.

Isso também diminui drasticamente o número de automóveis, que em menor número conseguem dividir o espaço com as bicicletas, motocicletas e pedestres. Basta querer.

Publicado originalmente no LinkedIn Pulse em 14 de novembro de 2016. 

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About Gustavo Ferrari

Jornalista especializado em transportes, trabalha há quase 10 anos desenvolvendo projetos de comunicação para os setores de transporte, em especial o ferroviário, rodoviário e duas rodas. Já escreveu para International Railway Journal, Revista Ferroviária, OTM Editora, TRAINS Magazine, SHR Editorial, etc. Atualmente trabalha como assessor de comunicação da ABIFER.
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